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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Grande silêncio e a paz interior

 Reunião de 21/01/2012




Texto de Fernando Altemeyer Junior, publicado na revista O Mensageiro de Santo Antonio - jan/fev. 2012, dos frades franciscanos conventuais de Santo André.



O Grande Silêncio é o nome de um documentário de 160 minutos, lançado em 2005, que retrata a vida da comunidade dos monges cartuxos em Isère, França, produzido por Phillipe Gröning. É uma meditação silenciosa sobre a vida monástica. Sem música à exceção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas ou quaisquer comentários. Evoca a passagem do tempo, das estações, o dia dos monges e as orações. É um filme sobre a presença do absoluto na vida de homens que dedicam a sua existência a Deus, no grande silêncio. O próprio cineasta diz que saiu mudado depois dos seis meses vividos no mosteiro. Que acontece quando mergulhamos no silêncio? O que muda em nós?

O silêncio como experiência e lugar de encontro é algo de revolucionário, e nunca reacionário. É preciso silenciar para ouvir. É preciso silenciar para recuperar a saúde física e mental. O mundo anda doente, pois vive um exagero de decibéis que ensurdecem e atordoam. Apatia ou resignação são os sinais da alienação de onde estamos e de quem somos. Isso tudo é fruto do barulho e da dispersão. A pessoa silenciosa ou taciturna é alguém que está além ou aquém das palavras. Tem um fio de prumo sobre sua cabeça. É alguém que vive em paz e transmite paz em palavras e atitudes. Dizem os árabes em um famoso ditado: "não abra a boca se o que tens a dizer não for mais belo que o silêncio". Essa é a mesma percepção de São Bento ao afirmar em sua Regra aos monges que: "... raras vezes se deve conceder, até aos discípulos mais perfeitos, licença para entreterem conversações, embora sobre assuntos bons, santos e edificantes, tão importante é o silêncio; porquanto está escrito: Falando muito não evitarás o pecado (Pr 10,19). E em outro lugar: A morte e a vida estão em poder da língua (Pr 18,21) (Regra de São Bento, capítulo VI, O espírito de Silêncio)".
Se lembrarmos das vidas de quatro personagens das religiões, vemos que se apresentaram como homens de Deus vivenciando largos momentos de fecundo silêncio e se puseram a falar o que lhes fora revelado no silêncio. Do judaísmo, Moisés e profetas como Oséias ou Elias fizeram a experiência do silêncio. No mundo islâmico, o profeta Muhammad nas grutas da Arábia Saudita ouve a fala do arcanjo Gabriel. No budismo os mestres espirituais, das escolas da China e do zen-budismo japonês encontraram o caminho da sabedoria. O próprio Jesus Cristo, filho de Deus Altíssimo é um primoroso exemplo de quem soube viver o silêncio em frequentes, longas e profundas experiências de oração, como descritas pelos evangelistas (Lc 6,12; Mt 14,23; Mc 1,35; Jo 17).
O silêncio está vinculado à proximidade do mistério e da intimidade com Deus. As coisas mais íntimas são sempre pronunciadas aos sussurros e murmúrios. Talvez seja por essa razão que o salmista diga na versão hebraica: "O louvor, para Vós, ó Deus, é silêncio (Salmo 65,2)". A louvação mais alta e mais verdadeira acontece quando suprimimos ou esgotamos as palavras. Penetramos o vasto universo do recolhimento interior e da contemplação de tudo o que existe. Nesse lugar e espaço de silêncio é que o Espírito pode fazer ressoar a Palavra Eterna e nos despertar de um sono que nos dispersava ou escondia nossa essência interior e a conexão com Deus.
Um caminho promissor que se abre, depois de um grande silêncio, é o caminho da oração. O monge João Cassiano (360-435) afirma de maneira sucinta: "é perfeita oração aquela onde o que está orando não se lembra de que orando está" ou ainda que a boa oração seja breve e silenciosa e manifeste-se por uma tensão ardente da alma, por um transbordar inefável do coração e por um entusiasmo insaciável do espírito (João Cassiano, Da oração, Vozes, 2008, p. 97). A prece cristã é um movimento interior que se realiza em etapas sucessivas e complementares: em um primeiro momento é sempre uma inspiração advinda do coração e da vida. Depois se torna respiração e conexão com a transcendência feita em um exercício leve e ao mesmo tempo vigoroso. Depois vem a transpiração e a expiração em que nos apresentamos para Deus com nossos anseios, dificuldades, necessidades e palavras para enfim atingirmos o ápice do caminho que é a surpresa que emudece e extasia. Nesse momento ouvimos as melodias celestes e os sons inefáveis que plenificam e reverberam em nosso coração e em nossa vida.
A oração cristã parte e nos leva ao silêncio. Santo Agostinho dizia que a oração é puro silêncio (Santo Agostinho, O Mestre XII, 39). Não é posse de Deus, mas um estar em Cristo para viver no seu Espírito e segundo as suas palavras. A oração cristã é a fé que fala. Não é um estar em si somente, embora necessite de um momento introspectivo. Não é um estilo meditativo, ainda que não se realize sem um caráter reflexivo e atento aos sinais que nos chegam pelos sentidos e pelo corpo. Não é só intelectual e cerebral, ainda que não possamos dizer que se reduza ao irracional ou inconsciente. Passa por momentos de duvidas e de incertezas, vividos como aridez e ausência de iluminação. É necessário que aconteça a abertura para a fidelidade que confia na esperança. E esse portal pessoal poderá abrir-nos ao Outro, aos outros e à natureza.
O silêncio é um estado de espírito bem como uma profunda atividade de amor. Caminhar de forma progressiva na escola do silêncio pede que estejamos sintonizados com Deus e sua revelação. Esse percurso é difícil, mas realizável. Foi chamado pelos místicos como o ascetismo do silêncio. Existem obstáculos no caminho que devem ser identificados. Estão fora e dentro de cada um de nós. Os obstáculos externos são aqueles superficiais que nos desviam do reto caminho. São como ruídos que prejudicam o foco e a comunicação verdadeira. Distraem e enervam, levando-nos ao estresse ou à repressão de medos e fantasmas. Exigem um olhar arguto e persistência mesmo depois de quedas. Os internos são aqueles obscuros e muitas vezes desconhecidos. É preciso contar com a graça de Deus para enfrentá-los e resistir. Exigem conversão e misericórdia, pois o silêncio interior favorece a comunicação e sua identidade veraz. Vencidos os obstáculos podemos penetrar em um estado agudo de felicidade, tal como o silêncio foi definido por Clarice Lispector. Dizia a poetisa: "Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras".
A Igreja cristã sempre cultivou o silêncio e faz recomendações constantes para que cuidemos dele em nossas celebrações e na vida cotidiana de nossos fieis. Assim a introdução geral da Liturgia das Horas proposta pelo Papa Paulo VI, em 01/11/1970 orienta que: "Nas ações litúrgicas deve-se procurar em geral que se guarde também, há seu tempo, um silêncio sagrado (SC 30); por isso, haja ocasião de silêncio também na celebração da Liturgia das Horas. Por conseguinte, se parecer oportuno e prudente, para facilitar a plena ressonância da voz do Espírito Santo nos corações e unir mais estreitamente a oração pessoal com a Palavra de Deus e com a voz pública da Igreja, pode-se intercalar uma pausa de silêncio, após cada salmo, depois de repetida sua antífona, de acordo com antiga tradição, sobretudo se depois do silêncio se acrescentar a coleta do salmo; ou também após as leituras tanto breves como longas, antes ou depois do responsório (Liturgia das Horas, CNBB, 1984, n. 201 e 202, p.56)".
O silêncio sempre foi muito apreciado pelos monges cenobitas ou pelos anacoretas (eremitas), não porque tivesse valor em si mesmo, mas porque permite uma abertura para a plenitude que se esconde por detrás das palavras. O silêncio amado e buscado pelos monges e pelos místicos é feito de preparação e de expectativa. É um reconhecimento explícito de que somos incapazes de falar sobre o que é fundamental ou dramático. O povo simples sempre diz quando está diante de uma grande felicidade ou diante de uma grande perda ou fraqueza: não tenho palavras para explicar ou dizer. Quando alguém fala de algo que mudou sua vida fala das espumas, mas nunca das correntes submarinas. Fala do que sentiu, mas pouco pode dizer do que de fato viveu. O não dito é muito mais poderoso que a palavra. Assim quando precisamos estar com alguém que tem uma grande dor, as palavras desvanecem e se atrofiam. O melhor é calar para compreender. O silêncio, nestes momentos, exprime melhor a adoração, o abandono e o fascinante que cada ser humano busca ardentemente. E nesta "noite do Espírito", que é hora de amor, decisiva e irrevogável, perceberemos que não fomos nem seremos abandonados. Descobriremos que "depois da hora do meu amor, envolta no Vosso silêncio, chegará o dia do Vosso amor, a visão beatífica. Por consequência, agora que não sei quando chegará a minha hora, nem sequer se ela já começou, preciso esperar no limiar do Vosso santuário e do meu; preciso libertar este lugar dos ruídos do mundo (Karl Rahner, Apelos ao Deus do silêncio, Lisboa: Ed. Paulistas, 1968, p. 40)".
Em todos os povos e culturas o tema do silêncio como porta para Deus, se fez presente. O poeta, músico e filosofo indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), ganhador do prêmio Nobel da literatura em 1913, tornou-se mundialmente famoso por seu livro Oferenda Lírica. Nele temos um belo poema sobre o silêncio que preenche o coração: "Se não falas, como vou encher o meu coração com o teu silêncio, e aguentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada, com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá, a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta (Gitanjali, Paulus, 1991, p. 19)".
Os monges do Oriente propuseram um caminho de oração fascinante chamado de hesicasmo, que é um estado de silêncio orante. O hesicasta é alguém que vive um estado de silêncio interior acompanhado pela memória constante de Deus. Isso exigirá uma qualidade fundamental que é a pureza de coração (Como água na fonte, Monges beneditinos camaldolenses, Loyola, 2009, p.187). Um dos maiores místicos da Igreja grega, São Simeão, o novo teólogo (949-1022) do mosteiro de Mamas, recomendava: "Sente-se sozinho e em silêncio. Incline a cabeça, feche os olhos, respire suavemente e imagine que está olhando para dentro do seu coração. Faça sua mente, ou seja, seus pensamentos, passar da sua cabeça ao seu coração. Respire e diga: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim! Pronuncie essas palavras em voz baixa, movendo suavemente os lábios, ou pronuncie-as, simplesmente, em espírito. Tente afastar todos os outros pensamentos. Esteja tranquilo, seja paciente e repita essa frase tanto quanto puder (Relatos de um peregrino russo, Vozes, 2008, p. 42)".
Uma religiosa carmelita de Paris, irmã Maria-Amada de Jesus (1839-1874), compreendeu claramente o papel central que o silêncio interior deve exercer em nossas vidas para a vida feliz e íntegra. Ela dizia que a vida interior pode ser resumida em uma só palavra: silêncio! E ainda falar pouco às criaturas e muito a Deus, pois o silêncio com Ele é um silêncio da eternidade, da plena união da alma com Deus. Ela divide os degraus dessa subida espiritual em doze, que podem ser comparados aos dozes graus de humildade da regra de São Bento. Aqui estão esses passos pedagógicos de uma vida silenciosa: 1. Silêncio das palavras; 2. Silêncio de movimentos ou ações; 3. Silêncio da imaginação; 4. Silêncio da memória; 5. Silêncio diante das criaturas; 6. Silêncio do coração e dos sentimentos; 7. Silêncio da humildade ou do amor-próprio; 8. Silêncio da inteligência; 9. Silêncio do julgamento; 10. Silêncio da vontade; 11. Silêncio consigo mesmo; 12. Silêncio com Deus!
Cultivando o grande silêncio ouviremos o vento tocando rochedos, o mar atingindo a praia, pássaros cantando maviosas melodias, crianças balbuciando, amigos celebrando, pobres pedindo amor, doentes sofrendo, florestas crescendo e, sobretudo seremos capazes de auscultar a voz interior proclamando que o amor de Deus existe em nós, suave e inefável. Na voz da monja Maria-Amada de Jesus, poderemos então dizer: "Eu sou semelhante a um pequeno grão de areia, que espera na praia a onda que o fará mergulhar no oceano".

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Salutogênese - parte III




Reunião em 15/9/2011

Parte III
(apontamentos de Anísia Motta)

    A Salutogênese tem cinco princípios para serem seguidos na educação escolar:

1. A educação segue rigorosamente a cronologia da criança. Elas não podem repetir de ano porque seu cropo não vai parar de crescer, precisam de nutrição que corresponda a sua idade. Um ambiente sadio também faz parte desse primeiro princípio, como a proteção contra o que causa traumas nessa idade. Hoje, fala-se muito de vivências traumáticas e a criminalidade frequente agrava a situação.  A maneira como se aborda tais ocorrências, o jeito de falar, pode criar certa proteção às crianças. Mas o que vem pelas mídias penaliza-as muito. É preferível poupá-las de seu livre acesso a elas, sozinhas. Elas roubam o tempo da criança, que poderia ou deveria movimentar-se. Tolhe-lhes a criatividade para elaborar seus pensamentos por si. O que nos deixa sadios até idade avançada é essa criatividade interior e não o mero consumo, que oferece tudo pronto.

2. Currículo elaborado, correspondendo estritamente à faixa etária - é verdadeira psicologia e fisiologia do desenvolvimento. Steiner quis que os conteúdos fossem trazidos em ritmo de quatro semanas, através de várias matérias. A partir da cronobiologia e reabilitação, sabe-se que o ritmo de cura se faz em ritmo de quatro semanas. Em quatro semanas estabelece-se um hábito, férias de quatro semanas são mais saudáveis que de duas ou três semanas... Steiner propõe que se fale de drogas, álcool, sono, questões de saúde... mas, sempre tudo relacionado aos problemas globais, à economia. Dra. Michaela foi estudar tudo isso para perceber a relação dessas realidades com saúde. Na Europa, há a política de subvenções de manteiga, leite, cereais... lá se produz leite excessivamente, mas não saudavelmente... para as vacas. Esses excessos são transformados em leite em pó e manteiga e estocados, para manter os preços elevados. Como ninguém quer pagar o transporte para distribuição desses excedentes, para o terceiro mundo, então ele é destruído. Ela então, se deu conta do absurdo da economia moderna, do sistema absurdo do qual todos participam. Steiner dizia que se deveria comparar o cancer com o crescimento econômico, o comportamento financeiro: não está de acordo com a vida; a economia assemelha-se a um carcinoma social. Dinheiro sadio deve circular de forma saudável e a produção deve estar diretamente determinada pela demanda, ocupando adequadamente as pessoas, sem provocar desemprego.
    Os conteúdos curriculares, segundo Steiner, devem contemplar o funcionamento biológico: assim, no período da manhã, deve-se tratar daqueles que exigem mais da cabeça; à tarde, os que exigem da parte motora. Isso, comenta Dra. Michaela, está de acordo com o que se aprende na medicina. De manhã há mais fluxo sanguíneo na cabeça; à tarde, mais nos membros. Mas, infelizmente, não se consegue realizar desta forma os currículos, em todos os lugares.

3. A boa relação entre pais/professores/alunos - sobretudo a boa relação pedagógica professor/aluno - com sinceridade, compreensão e respeito. Steiner perguntava aos alunos se gostavam de seus professores e não o contrário. A inteligência emocional, ainda não conhecida então, era preocupação de Steiner, na medida em que ele cuidava do envolvimento emocional positivo, sem o qual não se aprende bem. O aluno precisa perceber a devoção do professor à verdade, ao conhecimento. Toda educação deve ter por objetivo a autonomia.

4. Metodologia: deve ser artística, o que significa que o ensino deve ser orientado por metas, mas também, por processos. Isso é típico da arte, que tem metas, mas exige que se treine e, ao longo desse treino, algo da meta vai se manifestando. O aspecto decisivo é que cada criança é artista e deve ir aprendendo de forma autônoma.

5. Orientação espiritual do professor. Steiner foi criador da Antroposofia... uns pensam que é religião, filosofia, sistema espiritual moderno. Steiner tem um conceito claro de espiritualidade como sendo o pensar do ser humano. Pensar, para ele, é competência espiritual; sem pensamento não compreendemos. O que sabemos sobre Deus é produto de nosso pensamento. Falar, usar palavras que não se conhece o significado, nada representam, não remetem a nada. Toda a obra filosófica de Steiner é derivada do fundamento pensar. A Antroposofia quer ser o caminho de conhecimento que pretende conduzir o que há de espiritual dentro de nós, que é o pensar, no que há de espiritual no universo. Steiner mostra em todos os detalhes que a ciência espiritual, como o pensar do ser humano, está em coerência com a natureza, o mundo. Não é por milagre que pelos pensamentos é que se descobre as leis da natureza, da matemática. De toda forma, estimulou os professores a desenvolverem seus próprios pensamentos, da maneira mais autônoma. Esse tipo de espiritualidade está de acordo com qualquer religião. O pensamento é o caminho de compreensão para toda religião. O pensar não é religião, mas é o caminho para compreendê-la.
   O professor se exercita em pensar autonomamente e desenvolver uma imagem espiritual, não materialista e acima de todas as religiões.

   "Aprendemos para compreender o mundo. Aprendemos para trabalhar no mundo. O amor entre as pessoas vivifica todo trabalho humano."
    "Cristo  é o Mestre dos mestres, o Mestre do amor humano. É importante que os professores saibam que tem um Mestre ao qual podem pedir conselhos diariamente"

(Citações de Steiner, retiradas de uma festividade dominical da primeira escola Waldorf - devem ser entendidas como um manifesto salutogênico)

A pedagogia Waldorf é considerada cristã, mas supraconfessional. Quando Maslow estudou a alma, descobriu que a alma saudável é sincera, amável, respeitosa, dá autonomia ao outro. Isso é salutogênese e isso aparece no Evangelho de João: conhecer a verdade que nos libertará. "Quando dois ou mais se reunirem em meu nome, estarei no meio deles". É possível reconhecer que são mais discípulos pelo amor que os une.
   No terceiro ano de vida é que começa o pensar. A primeira atividade autônoma aconteceu no andar. No segundo ano, quando a criança aprende a falar, só diz a verdade; só quando aprendemos a pensar é que mentimos.
   No terceiro ano de vida acontece a primeira atividade mental autônoma; quando a criança diz EU, começa a atividade consciente. Vivemos uma vida eterna nos pensamentos espirituais; vivemos uma vida passageira dentro de nosso corpo. O paradigma salutogênico é: a mesma inteligência com a qual o ser humano pensa é a mesma com a qual o corpo vive.
    A autorregulação dos processos de autocura é que nos encarna como seres anímicos espirituais. As forças de crescimento abandonam o corpo quando nada mais tem a fazer com ele. Já se transforma em vida eterna, em vida de pensamento. Refletimos nosso pensamento no cérebro. Quando se tem uma experiência de quase morte, acorda-se no pensar. Podemos imaginar que vai se encarnando sob as asas da vida eterna e chega um momento que se "escarna" da vida passageira. Quando morremos é que nascemos espiritualmente. Se eu fosse uma pessoa maravilhosamente espiritual, não teria a chance de me encarnar em um corpo e não saberia o que é um ser humano. Quem não morre antes de morrer, este degenera antes de morrer. Se no processo de pequenas mortes, eu não reconhecer o aspecto espiritual, perco a consciência individual.

"Admirar o belo, guardar o verdadeiro, admirar o que é nobre, decidir o que é bom - isso conduz o ser humano para atuar o que é correto, sentir em direção à paz e pensar em direção à luz, me ensina a confiar no reinar divino, em tudo que há no universo, nas profundezas da alma" - Steiner.

sábado, 24 de setembro de 2011

Salutogênese - Parte II


Reunião em 15/9/2011

Parte II
(apontamentos de Anísia Motta)


Até que ponto a pedagogia Waldorf é salutogênica?
Quando uma criança nasce, precisa de 6 a 8 anos para a maturação básica do sistema nervoso e dos órgãos dos sentidos. Só depois desse tempo, o sistema cardiorrespiratório atinge a condição adulta. Leva entre 18 e 21/22 anos para o sistema metabólico e esquelético atingirem a maturidade. De 21/22 anos até 45 anos para termos certa estabilidade fisiológica, para depois ocorrer a queda, a curva descendente de nossa biologia. É inevitável, nada a impedirá e virá o amém da Igreja. Nem academia, hormônios ou outros recursos poderão impedir que o processo se complete. O que amadurece por último, envelhece primeiro. Se a cabeça já fosse deteriorando, seria o caos. Começa com o metabolismo (diabetes II), sistema esquelético (joelhos, pescoço, coluna...), surgem problemas biliares, cálculos renais... Estatisticamente, até 42 anos tem-se o pico da vida. Aos 60 anos aparecem perturbações do ritmo cardíaco (hipertensão p.ex.), patologias pulmonares. Entre 60 e 70 anos vêm necessariamente, os óculos, aparelhos auditivos, “terceira” dentição, agendas sobressalentes para ajudar no que se esquece. A memória de curta duração se compromete mesmo em pessoas sadias.
O que se faz como tratamento complementar, ao lado dos medicamentos, usado na pedagogia Waldorf para ajudar o desenvolvimento das forças corpóreas sadias: aconselhamento de vida, biográficos; como lidar com as crises, psicoterapia. É preciso encontrar um novo ideal de vida, senão o adoecimento vem mais rápido. Na consulta, é preciso perguntar, para descobrir o que se deseja, qual é a meta da vida. É necessário acender o idealismo. Quando se consegue isso, o medicamento funciona e as mazelas são superadas.
Os alunos, no ensino médio, precisam aprender a pensar autonomamente, superar as crises típicas da adolescência, não perder o entusiasmo pela vida; o idealismo não pode ser destruído na escola, mas estimulado. Se isso não acontece no ensino médio, não pode renascer mais tarde. Se não se conseguir isso, ocorrem problemas cardiocirculatórios e respiratórios. Terapia artística, eurritmia, tudo que leva a mover-se ritmicamente, liberta a região do coração – isso corresponde à faixa etária até 7/8 anos, quando, na pedagogia Waldorf tudo isso é levado à ação. É uma fonte de saúde que será levada muito bem nessa faixa etária e evitará doenças que poderiam ocorrer.
Como médica pediatra, a palestrante reconheceu que a pedagogia Waldorf é uma medicina preventiva. Quanto mais saudável a “encarnação”, mais saudável a “escarnação”. Contos de fada, conteúdos com grandes imagens, contos de Grim... cada um desses contos mostra um processo evolutivo, até sua conclusão: as crianças desenvolvem uma consciência imagética profilática. Com pessoas idosas, diante de dificuldades de memória, busca-se transmitir grandes imagens. Estudo feito com freiras revelou que elas tinham menos Alzheimer porque elas teriam vida mais saudável. Perguntou-se: elas são diferentes? O estudo comparativo do cérebro revelou que as freiras também apresentavam placas no cérebro, mas, elas não evoluíram para Alzheimer. Concluiu-se que a vida ritmada delas – repetição de orações, de histórias bíblicas, os evangelhos (não mecanicamente) dos quais se busca sempre coisas novas, como crianças que não se aborrecem com a repetição das histórias – traria grandes benefícios. Elas teriam também atividade mental muito intensa, o que as ajudou a desenvolver mecanismos compensatórios – as áreas cerebrais que declinavam eram compensadas.
(continua)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Salutogênese - Dra. Michaela Glooeckler* - Parte I

Reunião em 15/9/2011

Parte I
(apontamentos de Anísia Motta)




O conceito de salutogênese é de Anon Antonovsky. Quando Rudolf Steiner faleceu, Antonovsky tinha dois anos de idade. Steiner, este ano, faria 150 anos de vida.
Etimológicamente, salutogênese significa origem da saúde: do latim salus (saúde) e do grego gênese (origem).
De 1970 a 1978, Dra. Michaela fez seus estudos de Medicina. Para ela, o conceito de saúde elaborado pela Organização Mundial de Saúde deixa muito a desejar, pois para a ONU, saúde é "bem-estar físico, anímico e espiritual". Segundo ela, isso não diz nada e para isso não é necessário estudar medicina.
Hoje, sabe-se muito a respeito de saúde. Em 1979, criou-se na Alemanha a primeira cadeira que cuida da Saúde; hoje, existe a Ciência da Saúde.
É interessante ver o que desencadeia um movimento novo. Por ser alemã, aquilo que fez Antonovsky (que era judeu), toca-a muito. Imigrado para os EUA, estudou sociologia médica. Após a guerra, surgiu um estado judeu e Antonovsky transferiu-se para Israel, em 1980. Na Universidade de Bersheva, foi incumbido da saúde de senhoras idosas. Descobriu algo que o surpreendeu muito: entre as idosas, as sadias eram sobreviventes do holocausto. Pelos estudos médicos, os sobreviventes deveriam sofrer de síndromes pós-traumáticas intensas. Obviamente, existiam portadoras destas síndromes, mas a maioria era saudável. Então ele começou questionar a razão de tais dados e os seus encontros com essas senhoras lhe permitiram chegar às suas descobertas. A partir daí, resumiu o conceito do que confere/concede saúde: COERÊNCIA, referindo-se à RELAÇÃO.
A vida é um sistema inter-relacionado, o mais complexo que se conhece. Cada sistema, cada célula precisa ter um meio interno com ritmo, certas funções. Além de um meio interno regular, temos contato com o meio externo, somos um sistema aberto.
Uma das vivências mais bonitas de Dra. Michaela, na sua experiência com escolas, durante 10 anos, foi sobre a diferença entre o vivo e o novo. Uma menina lhe respondeu que o que é vivo, precisa de contexto, uma coerência interna e externa. Antonovsky dizia que: o que não se adequa ao ambiente, prejudica-se muito fortemente. O aspecto decisivo é sentir uma relação boa com o ambiente. Esse sentimento de coerência se vincula à:
·         Compreensão
·         Vivência de algo com sentido
·         Manuseabilidade (como lidamos com as coisas)
Nossa alma precisa dessas três competências: pensar, sentir, querer.
Na escola, uma criança que não compreende nada, não consegue ficar bem, sente-se doente.
Às vezes compreende, mas acha tudo muito tedioso, chato. Isso não é saudável também. Os sentimentos vão para o vazio, não se estabelecem relações, fica tudo muito solto.
Numa terceira situação, ela compreende, [as coisas] tem sentido, mas não consegue fazer nada daquilo que os outros conseguem. Isso também é pouco saudável.
A descoberta de Antonovsky percebe que esses três sentimentos são fundamentais para a manutenção da saúde, que deve ser atingida até os 25 anos. Antonovsky não conheceu Steiner e não se refere a ele, mas ambos têm a mesma visão.
Se se tem uma visão de mundo e é possível adequar as coisas a ela, com um sentido, isso é saudável; caso contrário, tudo se perde. Uma visão de mundo que me dê sentido me concederá sentimento e capacidade de manusear sensatamente [a situação]. Como ter uma visão de mundo tão dinâmica, compreendendo a si próprio e ao mundo? Quando valorizamos alguma coisa, ela passa a ter sentido para nósquando conseguimos lidar com alguma coisa que se afina conosco e com nosso contexto, somos beneficiados por isso.
Abraham Maslow fazia parte dos psicoterapeutas positivistas, era um humanista (não era psicanalista). Maslow estava estudando as condições para a saúde da alma e descobriu as mesmas coisas que Antonovsky e algo mais. Entre as pessoas mais sadias, sobreviventes do holocausto, estavam as que tinham experiências espirituais, experiências “apicais de outro caminho”. Entende-se como nessas condições anti-humanas do holocausto, não deve ter havido poucas pessoas que tiveram experiências da proximidade de Deus.
Antonovsky descobriu três qualidades para que as relações se otimizem. Como psicólogo, as viu como procedentes das relações inter-humanas. Uma relação interpessoal concede saúde; é boa quando é honesta, sincera. Em segundo lugar, se essa relação tem cunho amoroso e, em terceiro lugar, se essa relação está permeada pelo respeito à autonomia do outro. Uma alma não se sente se não tem liberdade. Não adianta a mãe ou a professora dizer que compreende a criança; o aspecto importante é a própria criança sentir-se compreendida.
Nos sentimos compreendidos pelo outro quando somos olhados de tal maneira que não fiquemos menores ou que o outro nos coloque maiores do que somos, num pedestal. As duas situações não são saudáveis.
Goethe fez um poema à sua amada – “Eu me senti bom aos seus olhos”, que encantou Michaela. Ela conta que o poeta, antes, enviou mais de 300 desenhos da natureza, que fez para a namorada. Esta, reclamou porque ele poderia escrever uma carta de amor, um poema e não ficar enviando desenhos de pedra, árvore, nuvem... Ele escreveu-lhe dizendo: olho para a natureza com delicadeza e tenho desejo que você aprenda a olhá-la através de meus olhos.


A magia de um olhar amoroso é fonte de saúde. Quanto mais sinceridade e respeito recebemos, mais nos sentimos sadios na alma.


*Michaela Glooeckler: médica pediatra, co-fundadora da Aliança da Infância, trabalha pela preservação internacional da Pedagogia Waldorf, da Agricultura Biodinâmica. É médica antroposófica, cuida do currículo social voltado à infância)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Pedagogia da esperança

     A esperança cristã se desenvolve através das experiências humanas, por isso, é importante favorecer aquilo que pode permitir o crescimento de uma verdadeira esperança e lutar contra o que pode afundá-la.
    
7.1 Despertar a confiança
     Cultivar um otimismo sadio, sem ingenuidade e sem esquecer os problemas e dificuldades, é uma maneira cultivar a esperança. Motivar as pessoas, ajudando-as a encontrar estímulos que a impulsionem a atuar, crescer, empreender novas tarefas e propor-se novas metas são maneiras positivas de cultivar esperança.
     Todos podemos ser estímulo e fonte de esperança para os demais. Toda graça que recebemos pode converter-se em graça para os demais. Estamos chamados a ser graça para os outros. Trata-se de viver, atuar e ser de tal maneira que seja uma sorte encontrar-se conosco.
     Uma maneira de começar é não fazer a vida mais difícil e dura do que já é, para ninguém. Que a vida seja melhor, mais humana, mais suportável ali onde eu esteja, onde eu atue, fale ou mova-me. Saber criar por onde eu passe, um clima no qual seja mais possível a esperança.
     Devemos nos lembrar sempre que a bondade de Deus manifesta-se, sobretudo, através da bondade dos homens.

7.2 O desenvolvimento de uma atitude positiva
     A pessoa sem esperança tende a adotar uma atitude negativa; a pessoa toda se faz negativa: seu olhar, sua inteligência, seus sentimentos, suas atitudes.
     É preciso que essa pessoa introduza em sua vida um olhar diferente, uma valorização e um apreço positivo das pessoas, das coisas e dos acontecimentos. Necessita encontrar-se com pessoas que vivam positivamente e saibam apreciar e olhar a vida com olhos mais confiante; pessoas que a ajudem a descobrir que a vida não se reduz a esse problema, que a vida é sempre mais. Que ela pode, ao invés de ver a vida toda a partir daquele problema concreto, vê-lo a partir da profundidade da vida toda.
     Aqui é onde a pessoa que crê pode ajudar a curar a desesperança. "Nós sabemos que, em todas as coisas, Deus intervém para o bem dos que o amam (Rm 8, 28). Nossa vida não é alheia a Deus. Não há nenhum sofrimento ou fracasso, nenhuma solidão, traição ou pecado, fechado ao amor ou à graça de Deus.
      A partir da fé pode-se ajudar as pessoas a ampliarem seu olhar; junto a pensamentos negativos e danosos, podem brotar pensamentos mais amáveis e nobres; junto a sentimentos tristes e derrotistas, podem nascer outros mais luminosos e pacificadores; junto a avaliações mais duras e implacáveis, pode haver atitudes mais compreensivas e flexiveis; junto a decisões complicadas podem suscitar-se determinações mais nobres e dignas.
     Temos que exercitar-nos mais em descobrir o positivo da vida das pessoas e dos acontecimentos. O negativo é mais cômodo e fácil de ressaltar; o positivo exige mais esforço, mais atenção e mais fé. Contagiar olhar positivo, pensamentos, sentimentos, atitudes positivas é gerar esperança.

7.3 A acolhida mútua, fonte de esperança
     As pessoas que sabem acolher semeiam esperança ao seu redor.
     A acolhida mútua, o partilhar de maneira positiva as dificuldades da existência geram esperança. Se soubermos estar junto à pessoa que sofre e partilhar suas preocupações, se essa pessoa souber que, pelo menos junto de nós pode estar segura e manifestar-se como é; sabendo-se aceita, lentamente a esperança será despertada nela, crescerá sua confiança na vida, ela pode abrir-se a caminho para o Deus da esperança.
    Esta acolhida não é questão de técnicas ou destrezas aprendidas. É uma maneira de ser, de viver, de não passar distante de quem necessita de nós. É uma maneira de dar um rosto histórico ao Deus invisível e misterioso, que é acolhida infinita e insondável.

7.4 A compreensão e a oferta de futuro
     A verdadeira acolhida implica uma atitude de compreensão, de empatia, de maneira que quem se sente desesperançado possa sentir que será compreendido. Esta atitude gera esperança.
     É preciso começar por não depreciar ninguem, sequer interiormente. Saber compreender. Lembrar sempre que as pessoas não necesseitam de nossa crítica, mas de força para mudar.
     É necessário perguntar-nos o que podemos fazer para humanizar a vida, para introduzir uma qualidade nova nessa pessoa, nessa sociedade. As pessoas, mais do que nossa condenção, necessitam de nossa ajuda.
     A atitude mais humana e humanizadora é: crítica exigente em meio à sociedade, perdão e oferta de reabilitação a cada pessoa. Uma sociedade não se renova nem cresce em esperança apenas atirando pedras sobre os culpados.

*Fragmentos do livro Es bueno creer. Para uma teologia de la esperanza - José Antonio Pagola
   
    

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Esperar contra toda esperança

Algumas tarefas da esperança na sociedade atual

Reunião do dia 30 jul. 2011

      Os cristãos foram acusados de ter posto seus olhos na outra vida e terem se esquecido desta. Contudo, a esperança na "nova criação" consiste, precisamente em buscar e esperar a plenitude e realização total desta terra. Ser fiel ao "futuro final", querido por Deus, é ser fiel a este mundo até o final, sem desesperar de nenhum anseio e sem frustrar nenhuma aspiração verdadeira humana.

Tarefas da esperança cristã hoje:

      Abrir horizonte: a vida é muito mais que esta vida; a realidade é mais complexa e profunda do que nos quer fazer crer o realismo; as fronteiras do possível não estão determinadas pelos limites do presente. O futuro do ser humano está sendo gestado no meio da história, as vezes absurda e mediocre que levamos.
      O cristão realista e lúcido aproxima-se da realidade como algo inacabado e a caminho; não aceita as coisas como são, mas como deverão ser.

      Criticar a absolutização do presente: quem ama e espera o futuro de Cristo não pode conformar-se com a realidade tal como está hoje. A esperança introduz contradição com a realidade presente, era protesto, desperta da apatia e da indiferença próprias do homem contemporâneo; desinstala. Sempre é possível transformar a realidade em algo mais parecido ao que será a "nova humanidade".

     Introduzir sentido humano no progresso: a crítica da esperança a este mundo injusto não é um não de mera existência em meio à covardia geral dos "escravos satisfeitos". É um não construtivo que nega o presente para construir uma realidade distinta e melhor. O cristão sente-se impelido por sua esperança, a trabalhar incansavelmente por criar já, agora, dentro possível, isso que sabemos já encontrar-se na história humana como possibilidade prometida por Deus: uma sociedade realizada no amor, na justiça e no perdão. A esperança cristã deve contradizer hoje, de maneira particular, essa utilização pragmática da técnica que atende apenas a eficácia e o rendimento, descartando qualquer outra consideração sobre a dignidade humana como irrelevante e sem interesse. Pode-se programar o futuro de outra maneira; pode-se dar um "rosto mais humano" ao progresso.

sábado, 18 de junho de 2011

Esperar contra toda esperança*


Perfil da esperança cristã hoje

Reunião do dia 18 jun. 2011


·    Enraizada em Cristo: atitude permanente, estilo de vida; nasce do Senhor, brota só do Senhor.

·    Em tensão para o futuro: olhar no futuro (da história e das coisas). Não se detém naquilo que é possível constatar pela experiência, busca o prometido em Cristo. Vê tudo em marcha, movendo-se para a vida definitiva. Tudo é penúltimo. Acima da alegria ou tristeza, olhar as coisas tal como um dia deverão ser.

·    Esperança arriscada: apoia-se na promessa do que ainda não se pode comprovar. Não se trata somente de esperar, mas de atrever-se a esperar, inclusive contra aquilo que se tem diante dos olhos, quando a experiência diz que não há nada que esperar. Uma esperança que apoia-se na fidelidade de Deus, mas que sofre tentações: a dúvida (O que é possível para Deus? Quanto Deus ama a humanidade, quanto perdoa, quer mesmo salvar?); a covardia (de não nos atrevermos a esperar; ficamos paralisados, sentindo-nos incapazes de realizar a tarefa hoje); aparente segurança e invulnerabilidade (segurança que irrita; não se pode confundir segurança com a certeza da fé.; ninguém possui Deus com segurança: a Deus busca-se, espera-se. Em Deus se confia).

·    Esperança crucificada: cresce, purifica-se e se consolida no mal e frente ao mal. O Deus cristão não é o Deus todo-poderoso que nos arranca para fora da história e magicamente nos transporta à vida eterna. O caminho real para a ressurreição é a cruz. É preciso relativizar o mal, vive-lo em suas verdadeiras dimensões: não há situação, por mais difícil que seja, que não esteja aberta ao amor de Deus. Na vida sempre há saída.

·    Esperança paciente: estamos a caminho, orientados por uma meta que ainda não se alcançou. É preciso tolerância ativa, inteireza, perseverança, resistência ativa, saber “enfrentar a adversidade”. Aos impacientes e aos resignados, Chamado à paciência: não é possível o cumprimento sem espera, nem separar o joio do trigo agora; paciência histórica de Deus

·    Esperança lúcida: projeta luz sobre a realidade; ilumina a vida e permite entendê-la melhor; busca uma coerência final. Atitude vigilante: estar no mundo sem ser do mundo. Discernir os limites do que é possível sem resignação, sem fanatismo ou impaciência.

·    Esperança inconformista: não se habitua à injustiça, à fatalidade da morte, à mediocridade do ser humano. Inquieta-se sem descanso. Protesta, perturba, torna-se incômoda em busca de uma sociedade melhor. Sem resignação diante do sofrimento.

·    Esperança solidária: não espera só para si.

·    Esperança criativa: impulso à ação. Fazer o que espera. Projeto de ação e compromisso. Aquele que não muda a terra não crê no céu. Frutificar talentos.
*Fragmentos do livro Es bueno creer. Para uma teologia de la esperanza - José Antonio Pagola